VENENO
saltos no tempo e no espaço
e em meu espaço, vivo devaneios
que em nenhum outro meio vivi de verdade,
nunca entendi o em que me tornava.
apenas a morte diluída
entre tudo o que preciso e faço
(quando o que mais nego é fato
e toda a verdade, eu minto).
extinta a vida pelas veias,
o peito bombeia algo que não se pode mais chamar de sangue.
final lento, adormecimento infame,
as palavras chamas, pensamento incendeia.
sutilezas mil, perversão inoculada
e sob a pele queimada, toda sorte de ofensas;
necrose íntima da paixão domesticada
e a triste verdade: uma morte certeira.
JT
Pulsão de morte 2
Profusão de impressões e pensamentos inconstantes
sob a forma metabólica da ansiedade e da exaustão,
energias liberadas desintegrando a matéria,
energias e outras forças que jamais dissiparão.
Porque incerto é o movimento, impreciso o bastante
para que o resto seja o mesmo, por mais que evite o coração;
então o fim já é vivido sem ter havido um começo:
o destino está traçado nas linhas finas destas mãos?
Não adiarei o inevitável, resignado eu me entrego
e mergulho corpo e alma nesta corrente em ebulição.
Desfragmento minhas partes e reintegro-me ao universo,
milissegundos e verei o fim de mais uma criação.
Palavras já em mim não fazem mais qualquer efeito,
de palavras já não mais me basta sequer cogitação.
JT
O LIMITE
Delineio pensamentos rápidos, escuto o vento,
construo um muro ao redor, invento
mil maneiras de fazer justiça, a contragosto
do melhor que há em mim,
mas a favor do pior que vem dos outros.
O silêncio sempre foi a mais sábia das respostas,
e por incertas vezes, tantas vezes, na certeza mais remota,
sussuros levaram-me à inevitável verdade:
o que está em questão nos outros
não estará j a m a i s em questão aqui.
Outro dia pintaram o muro com palavras
encadeadas numa sequência sem sentido sem fim:
esta veio a ser a maior amenidade
já um dia edificada nas cercanias de mim,
muitas pedras pesadamente carregadas,
braços fortes que nada lembram o lugar de onde vim.
Agora tudo o que quero é atitude
neste instante imenso em que fecho os olhos
e revisito os sonhos que terei antes de dormir,
esperando que a cada instante nunca paremos de sonhar.
JT
Life is wonderful.
Picture by Avatarpalin
Tempestade
Caçador de tempestades eu sou
capturo por incerto tempo todo o tempo,
busco em outras terras cataclismas de mim,
deixo no ar meus versos de raio e chuva, som e trovão.
Mil marés e o sentimento verte em águas mais profundas,
inverto o leme e o céu à frente mostra outros desafios.
Entre as estrelas vejo a diferença, vejo todo o passado;
desenho linhas de esperança, descubro uma nova constelação.
Os ventos contam histórias velhas e distantes
de tempos quando a coragem movia os homens,
falam de lendas ancestrais de outros lugares.
As noites escuras não me deixam com medo:
eu navego meus sonhos e conquisto outros reinos,
no olho do furacão vivo o maior dos milagres!
JT
VIDRO
Frágil como vidro delicado,
ao primeiro susto, tudo se partiu.
Com o vento forte, voou pelos ares.
Rodopiei: não soube mais dizer quem sou.
Em cima permaneci, mas a linha do horizonte
delineava pensamentos rápidos: o peito batia,
a respiração forte, e ninguém segurou minha mão.
Alienei-me do amor, dei asas à imaginação.
Minha paz, agora insone, mero rascunho de mim;
a visão turva, mãos trêmulas, toda a pele amortecida.
Por um instante hesitei, o domingo inteiro hesitou.
Por um instante hesitei e esqueci de quem sou.
Os momentos são de vidro, de vidro toda a calçada.
De vidro a minha alegria; de vidro tudo, vidro nada.
O anel que tu me deste era vidro e se quebrou,
O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.
JT
do álbum Tango 3.0, de Gotan Project.
Interpretação
As palavras aí estão, uma por uma:
porém minhalma sabe mais.
De muito inverossímil se perfuma
o lábio fatigado de ais.
Falai! que estou distante e distraída,
com meu tédio sem voz.
Falai! meu mundo é feito de outra vida.
Talvez nós não sejamos nós.
(Cecília Meireles, 1945)
Núcleo
Explosões em Hiroshima, Nagasaki:
nem o tempo se esquece.
A fusão se perpetua
e hoje, o núcleo estremece.
Não só dos átomos, nem das esferas
mais sublimes, nem das mais tristes.
A conseqüência é decorrente
de mil verdades, tem mil vertentes.
E verte o sangue em energia,
desestruturando toda a genética.
O cruzamento das mentiras,
a violação da ética.
Explosões em toda parte.
Explosões da matéria.
JT
suficiência
uma vez derradeiro, ou para sempre verdade;
ou talvez quando o primeiro soa sempre como o último.
vejo sempre o lado belo, não importa o que falem,
assim limito o meu tempo: a permanência dos minutos.
porque por mais que eu insista, uma vez inconsciente,
incertos são todos os fatos, probabilidades de futuro.
respirando em meu espaço, desisti de seguir o tempo
que não é nem será meu - singularmente, só segundos.
aqui o mundo nunca pára, por mais que os sentidos me enganem,
acelerado o peito bate incessante, eu tão minúsculo…
centralizo o universo nas coordenadas mais distantes,
em paz, daqui observo maravilhas e milagres, vejo tudo!
JT
oui, un jour je saurai comme se chante ce morceau par coeur.
pulsão de morte
um salto suicida no escuro
para além da pele, dos sentidos físicos,
de pudores antigos enraizados nas palavras
desde quando repetição tornou-se sinônimo de sobrevivência
um piscar de olhos
e tudo o que sempre pareceu verdade soa cansativo e soa cansado:
permanente instância do ego que subverteu a compreensão,
ofuscou a luz, minha lucidez
como que à deriva,
o que deriva o pensamento instável me seduz sádico, mantem-me cativo:
um sonho fantástico em que estou sozinho, mas estou cercado
de parentes vários, agonizando todos em sufocação, baixinho
e morro sob um céu vermelho
sob um sol distante que brilha branco, diminuto, tão diferente…
ao meu redor, a iminente morte asfixia tudo, desespero absoluto!
a respiração é tóxica: e toda a vida morre, tudo tão de repente.
JT
Pulsão de Morte (Psicanálise - Wikipedia)
Anã Branca (Estrela - Wikipedia)
anti-matéria
tanto como os orbes no infinito céu
e todas as galáxias distantes,
transitam todos os pensamentos.
o tecido do universo é o mesmo que o meu:
as fibras da minha carne,
e eletricidade pelos meus nervos.
mas a responsabilidade, de ninguém mais,
além de mim mesmo.
a água das minhas células
milhões de elementos vitais
a força das minhas pernas
e lágrimas: todos os sais!
todo fim, um recomeço
e cada amor, um profundo mar.
JT
estranha singularidade
impossível controlar,
todas as forças apontam para a mesma direção:
meu núcleo, gravidade esmagadora,
esta urgência por união.
nesta atmosfera rarefeita
de gases tóxicos, cores mil, eu não posso respirar.
consumidos carne e ossos, desestabilizo.
um estranho metabolismo.
em paradoxo nas leis da física,
quando o que é físico em mim reflete um estado de espírito.
pensamento,
uma estranha espécie de saudade.
o que mais eu poderia esperar?
o que é verdade em mim não cabe do outro lado:
tudo é oposto e derradeiro,
desde que abracei esta estranha singularidade.
JT






